Autor: Alessandro Molon
Deputado federal pelo PSB-RJ
A preservação não é inimiga da produção
Manter floresta é sábia decisão econômica
EM NOME DE QUÊ?
AAmazônia arde. A imponente floresta, esta engrenagem perfeita que distribui água para toda a América do Sul, que limpa o nosso ar, que abriga a maior biodiversidade do planeta, encontra-se acuada pelo avanço do fogo e da retórica destrutiva do governo que deveria zelar por sua preservação. Passado mais um 5 de setembro, Dia da Amazônia, pergunto: tudo isso a troco de quê?
“O Brasil precisa oferecer mais terras para a produção, ou perderá oportunidades de exportação”; “A demarcação de terras indígenas inviabilizará o país”; “A Amazônia precisa se desenvolver, por isso é necessário legalizar o garimpo”.
Esses argumentos, que povoam as declarações do presidente da República e de seu ministro do Meio Ambiente, apresentam a preservação da floresta como um entrave à economia, à geração de empregos e ao desenvolvimento, algo distante dos fatos. Como se não bastassem, são acompanhados de uma orquestrada desestruturação da governança ambiental, do assédio a servidores e do estímulo a atos criminosos como o “Dia do fogo”.
A preservação não é inimiga da produção. Entre 2005 e 2013, quando o desmatamento caiu, o PIB da produção agropecuária cresceu. Também não falta terra para produzir, como o presidente da Sociedade Rural Brasileira atesta. Já se a floresta for derrubada, aí, sim, teremos impactos negativos na economia: estudo da Embrapa estima que mudanças climáticas devem provocar perdas à agricultura em torno de R$ 7 bilhões já em 2020, fora o descrédito internacional do Brasil perante a comunidade internacional. Ninguém quer se associar à derrubada ilegal de árvores.
O papel dos povos tradicionais na preservação do bioma é estratégico. Além de evitarem o desmatamento, também cuidam dos rios, poupando dinheiro a ser investido pelo governo no tratamento da água. Afinal, mais de 30% da água consumida no Brasil é captada diretamente de áreas protegidas ou de suas fontes.
Manter a floresta em pé, como se vê, é uma sábia decisão econômica. O perfeito ciclo da água, o armazenamento de carbono, a polinização… Se fôssemos pagar pelos serviços ambientais prestados pela floresta, ou puséssemos as árvores abaixo para usar a área para atividades econômicas, a conta ficaria sempre no negativo pro nosso lado, como mostra relatório compilado pelo professor sênior da USP, Ricardo Abramovay.
O antagonismo entre produção e preservação, portanto, serve apenas ao discurso de quem quer desinformar. A grande questão é que tipo de desenvolvimento queremos apoiar para o Brasil: um que seja atrasado e destrutivo, fomentando o extrativismo, desmatando e aprofundando desigualdades; ou um que enxergue este momento de crise como uma oportunidade para reestruturar a economia brasileira, mirando na redução das desigualdades, na promoção da justiça social, e vendo a Amazônia como um poço de possibilidades e oportunidades, com enorme potencial de desenvolvimento científico e tecnológico? Você sabe a resposta.
É urgente que atuemos juntos e olhemos para o desenvolvimento com esta nova lente, compreendendo que, sem a preservação do meio ambiente e a busca por justiça social, nenhuma outra empreitada pode ter sucesso.
Não há razões econômicas que justifiquem tamanha insistência do governo em destruir a Amazônia. Pelo contrário, o vigor da agropecuária depende das florestas permanecerem de pé, para garantir as chuvas que irrigam os campos. Por isso, pergunto novamente: este ataque à nossa floresta é feito a troco de quê? Do melhor para o país é que não é.
* Texto originalmente publicado no jornal digital Poder 360º em 9/9/2019