Reeleita para o terceiro mandato como deputada federal, com 480 mil votos, Tabata Amaral (PSB-SP), a quinta candidata mais votada para a Câmara dos Deputados em São Paulo, defendeu uma investigação aprofundada sobre uma possível interferência estrangeira nas eleições por meio das redes sociais.
“Eu não sei se a gente não está vivendo o resultado de uma interferência estrangeira. Eu não sou da teoria da conspiração, sou séria demais para esse tipo de coisa”, ponderou. “Mas precisamos, pelo menos, conseguir se questionar sobre o que está acontecendo”, disse em entrevista à coluna do jornalista Vinicius Passarelli, do portal Metrópoles.
A deputada citou o que chamou de “notícias estranhas” que se repetem diariamente nas plataformas digitais. Entre os exemplos, mencionou perfis de extrema direita com milhões de visualizações que, segundo sua avaliação, seriam operados por robôs; buscas pelo nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva que não direcionam ao perfil dele; recomendações, pelo WhatsApp, de canais ligados a Bolsonaro para usuários que procuram canais de Lula; e ferramentas de inteligência artificial que se recusariam a criar artes para Lula, mas aceitariam produzir conteúdo para seu adversário.
Em 2020, durante seu primeiro mandato na Câmara dos Deputados, Tabata apresentou um projeto de lei para combater o uso de robôs não identificados nas plataformas digitais. A proposta prevê medidas como limites para contas automatizadas ou falsas e maior transparência no impulsionamento de conteúdos.
Para a deputada, as redes sociais têm papel decisivo no resultado das eleições. “Estamos falando de um punhado de empresas controladas no Vale do Silício, cujas lideranças são muito próximas de uma liderança política estrangeira que tem uma visão clara sobre o resultado desta eleição”, afirmou, em referência ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Tabata avalia que o campo progressista, por muito tempo, “escolheu não estar na rede social”. Segundo ela, a presença digital vai além da manutenção de perfis institucionais e exige uma relação mais próxima com os eleitores, com respostas a comentários e disposição para ouvir as demandas do público.
A deputada afirma que nunca teve uma visão “Poliana” sobre as redes sociais e reconhece as limitações de uma campanha exclusivamente digital diante do poder financeiro e do uso de robôs por adversários. Como alternativa, destaca o uso de ferramentas como o WhatsApp para conectar e mobilizar apoiadores e voluntários.
Tabata afirma que sua atuação digital manteve vínculos concretos com a população. “Eu nunca entreguei meus votos nem minha mobilização a essas plataformas estrangeiras. Eu trabalho com pessoas de verdade”, declarou.
Tratamento desigual
Reportagem publicada pelo jornal O Globo nesta sexta-feira (23) aponta que um estudo do NetLab, laboratório de estudos de internet e redes sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com o International Panel on the Information Environment (IPIE), identificou indícios de tratamento desigual da Meta nos preços cobrados por anúncios políticos das campanhas de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno das eleições de 2026.
Segundo o levantamento, a campanha de Lula teria pago entre 33% e 43% a mais pelos anúncios, a depender do método de análise. O documento também aponta possíveis violações, pela Meta, das regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre transparência dos gastos eleitorais.
O estudo analisou 7.677 anúncios extraídos da API da Biblioteca de Anúncios da Meta, publicados entre 16 de agosto e 4 de outubro de 2026. O material estava associado a 19 páginas de anunciantes vinculadas a 11 candidaturas à Presidência da República.
Na quinta-feira (23), o corregedor-geral do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, determinou que a Meta e o X apresentem, em 24 horas, esclarecimentos sobre o uso de inteligência artificial e a distribuição de conteúdos políticos nas plataformas. A decisão atendeu a um pedido da campanha da chapa Lula-Alckmin, que denunciou possível favorecimento à candidatura de Flávio Bolsonaro na distribuição, recomendação, moderação e impulsionamento de conteúdos político-eleitorais, além do uso de ferramentas de inteligência artificial.
Também na quinta-feira (22) Ministério Público Eleitoral (MPE) acusou a Meta – dona do Instagram, do Facebook e do WhatsApp – de descumprir parte das determinações do TSE para garantir igualdade entre as campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro. O órgão pediu multa e aponta novos indícios de tratamento desigual entre os candidatos.
Após analisar relatório enviado pela Meta ao TSE, o Ministério Público Eleitoral concluiu que a empresa cumpriu apenas parte das 17 determinações do tribunal para o tratamento isonômico dos dois candidatos. A Meta teria cumprido algumas medidas, como a reversão das restrições na conta de anúncios da campanha, a suspensão dos anúncios eleitorais não contratados pelas candidaturas e a limitação da não recomendação aos perfis oficiais. No entanto, o MPE identificou pendências, como o processamento isonômico das denúncias, os relatórios dos canais e a prestação de informações sobre anúncios reavaliados ou suspensos.
A avaliação concluiu ainda que a Meta fez nova violação no uso de ferramentas de inteligência artificial. Segundo o MPE eleitoral, a campanha de Lula apresentou elementos que reforçam o não cumprimento da decisão, como a ferramenta de tradução automática da plataforma, que deixa de traduzir comentários favoráveis a Lula, mas traduz tranquilamente comentários favoráveis a Flávio Bolsonaro. Para o órgão, a distinção da resposta reduz a credibilidade da alegação de simples falha aleatória e alcança precisamente a manifestação espontânea do eleitor, o que demonstraria tratamento diferenciado entre os candidatos.




