
Foto: Reprodução
Autora: Luciana Trindade de Macedo
Secretária nacional do PSB Inclusão
Há uma mudança silenciosa acontecendo na forma como a sociedade enxerga a deficiência. Se durante décadas o debate público esteve centrado na exclusão, na falta de acessibilidade e na ausência de direitos, hoje uma parte dessa discussão parece ter sido substituída por outra narrativa: a de que ser uma pessoa com deficiência pode representar uma vantagem. Basta navegar alguns minutos pelas redes sociais para encontrar vídeos que ensinam como obter um laudo, explicam as isenções tributárias para compra de veículos, descrevem o acesso ao Benefício de Prestação Continuada (BPC) ou apresentam uma lista de supostos “benefícios” garantidos pela legislação. A impressão transmitida é a de que a deficiência passou a ser um caminho para acessar privilégios.
Essa narrativa me preocupa profundamente, não porque os direitos existam, mas porque ela elimina completamente a razão pela qual eles foram criados. Nenhuma dessas políticas nasceu da generosidade do Estado. Elas são resultado de décadas de mobilização do movimento das pessoas com deficiência e do reconhecimento de que a igualdade formal nunca foi suficiente para quem vive em uma sociedade construída sobre barreiras físicas, comunicacionais, atitudinais e institucionais. Quando uma isenção tributária ou um benefício assistencial é apresentado isoladamente, sem qualquer contexto, deixa de ser compreendido como instrumento de justiça social e passa a ser percebido como privilégio.
Essa distorção produz um efeito perverso. A sociedade passa a conhecer os direitos, mas continua ignorando a desigualdade que lhes deu origem. Poucos sabem que pessoas com deficiência ainda apresentam taxas muito menores de participação no mercado de trabalho, níveis mais baixos de escolaridade, renda inferior e maior exposição à pobreza. Poucos conhecem a dificuldade de encontrar uma escola verdadeiramente acessível e inclusiva, de acessar um transporte público acessível e seguro, de conseguir atendimento em saúde sem barreiras ou de exercer o direito mais básico de ir e vir com autonomia. Essas realidades raramente viralizam. Elas não cabem em vídeos curtos nem produzem o mesmo engajamento que uma manchete prometendo explicar “quanto uma pessoa com deficiência economiza na compra de um carro”.
Falo sobre isso porque vivi essas barreiras. Não conheci primeiro os direitos; conheci primeiro a exclusão. Estudar exigiu enfrentar obstáculos que meus colegas sem deficiência nunca precisaram enfrentar. Trabalhar significou provar inúmeras vezes que minha deficiência não definia minha capacidade profissional. Circular pela cidade sempre dependeu de uma infraestrutura que, muitas vezes, simplesmente não existia. Encontrar um banheiro acessível, entrar em um prédio, utilizar o transporte público ou participar de uma reunião nunca foram ações automáticas. Sempre dependeram de planejamento, da boa vontade de terceiros ou da esperança de que a acessibilidade prometida realmente existisse. Essa é a parte da deficiência que não aparece nas redes sociais.
O problema dessa nova narrativa não está apenas na desinformação. Está nas suas consequências políticas. Quando direitos passam a ser vistos como privilégios, tornam-se mais fáceis de questionar. A sociedade deixa de perguntar por que pessoas com deficiência continuam enfrentando tantas barreiras e passa a perguntar quanto custam aos cofres públicos. É uma mudança sutil, mas extremamente perigosa. Ela desloca o foco da responsabilidade coletiva pela inclusão para uma suposta vantagem individual de quem acessa políticas públicas. Esquece-se que o BPC existe porque milhões de pessoas com deficiência foram historicamente excluídas da educação e do mercado de trabalho; que as cotas existem porque a discriminação continua sendo uma realidade; que as isenções tributárias existem porque o custo da deficiência é muito superior ao que a maioria das pessoas imagina.
Talvez a maior vitória da desinformação seja fazer com que o país enxergue o custo dos direitos, mas permaneça incapaz de enxergar o custo da exclusão. Não se calcula quanto talento é desperdiçado quando uma criança cresce sem educação inclusiva de qualidade. Não se calcula quanto a economia perde quando milhões de pessoas são impedidas de trabalhar por falta de acessibilidade. Não se calcula quanto custa uma sociedade que transforma barreiras em destino.
A deficiência nunca foi uma vantagem. O que existem são direitos conquistados para reduzir desigualdades que continuam profundamente presentes. Enquanto milhões de brasileiros com deficiência ainda precisarem lutar para estudar, trabalhar, circular, acessar a saúde, participar da vida política e simplesmente existir com dignidade, qualquer tentativa de transformar esses direitos em privilégios representa não apenas um erro de percepção, mas uma ameaça concreta ao futuro da inclusão no Brasil.

